terça-feira, 1 de junho de 2010

Amor em sala de aula

Mesmo estando casada há muito tempo, Mara ainda era uma das mulheres mais lindas de todo o reino. Sua beleza era inconfundível e incomparável, pois era uma beleza de menina do interior, do tipo que todos gostam. Mara já havia viajado por diversas províncias do reino com seu marido, procurando encontrar um lugar onde se sentisse seu e pudesse ali construir sua vida.
Foi atrás de algo que ela ainda não sabia o que era, que entrou no curso para se tornar uma defensora de nobres e membros da corte, um curso difícil e caro, pois ao seu final, todos os formados eram submetidos a uma prova e caso não passassem perdiam o seu curso.
Mesmo com duas filhas e batalhando ao lado de seu marido para ganhar a vida, Mara enfrentava todos os dias o curso e todas as dores de ser mãe, trabalhadora e estudante. Atualmente ela e seu marido estavam morando na província de São Jose, mas seu esposo trabalhava na capital, São Paulo. Como ele saia cedo, incumbia a ela as obrigações de suas duas filhas, do trabalho e do estudo a noite.
Mesmo com todas as suas atividades, nada atrapalhava sua beleza, que era notada e impressionava a todos, alunos e professores do curso na cidade. Mara achava que tinha uma boa vida e que não poderia esperar mais dela, em relação aos sentimentos, pois estava casada há quinze anos e nunca havia se interessado por outro homem, tinha a certeza de que seu coração já estava trancado para o mundo e que dentro dele só havia espaço para sua família.
O que Mara não percebia é que dentro do seu ser ainda pulsavam os mesmos sentimentos de menina que sempre teve, o que ela não sabia é que dentro de seu coração, ainda havia uma chama, louca para queimar e cheia de sentimentos que podia pulsar amor para todas as partes de seu corpo.
Mara achava que não sentia falta de nada, mas nem percebia que quando se deitava para fazer amor com seu marido, era mais uma obrigação com o outro e com seu desejo carnal do que um desejo de amor alimentado por uma paixão, isso já havia ficado para trás há muito tempo em seu casamento, que hoje era mais uma situação de comodidade, companheirismo e cumplicidade do que a paixão que os uniu anos antes. Ela não sabia, mas sua ligação com seu marido era uma ligação de vida, pois tinham duas filhas e estavam há anos juntos. Obviamente tinham sentimentos um pelo outro, mas não o amor de homem e mulher que poucos conseguem encontrar.
Mara nem podia imaginar o que estava por vir, mas de uma coisa ela tinha certeza: nos seus sonhos, quando acordava ou quando olhava o por do sol e a lua iluminando o céu, sentia que algo lhe faltava, só não sabia o que, e por mais inesperada que a vida possa parecer, ela ia descobrir a felicidade e a dor de amar verdadeiramente alguém, pois ela jamais podia saber que nunca havia amado, mesmo estando ao lado de alguém por tantos anos.
Como todos os dias, Mara chegava a sua sala do curso e se sentava na sua cadeira. Sempre alegre e simpática, ela tinha muitos amigos e era vista como uma mulher maravilhosa por todos eles. Como já estava no ultimo ano do curso, conhecia todos os alunos e nada poderia ser diferente naqueles dois derradeiros semestres. Mas algo inesperado aconteceu.
Sem aviso, um novo aluno entrou pela porta e foi olhando para a sala procurando um lugar para sentar. Mara olhou para ele e em um primeiro momento não gostou muito da cara do rapaz. Sem pedir, ele se sentou na cadeira vazia a sua frente e ficou prestando atenção na aula. Ele se virou para trás e fez uma pergunta qualquer para ela que respondeu normalmente. Magicamente Mara passou de antipatia à apatia ao rapaz depois daquele momento.
O rapaz era Celso um homem que ainda não tinha encontrado ninguém na vida, estava em seu terceiro relacionamento e este caminhava para o mesmo destino dos outros. Hoje, ele apostava todas as suas fichas naquele curso, pois sua meta de vida, mais do que se formar, era encontrar o verdadeiro amor, pois este era o objetivo pelo qual vivia e sempre viveu, guiado mais pelo coração do que pela razão. Achava que indo para corte, poderia viajar e quem sabe encontrar o amor de sua vida. Quando entrou naquela nova sala naquele dia, não percebeu, mas ao sentar ao lado de Mara, estava mais uma vez sendo guiado pelo coração. Os dois não sabiam, mas daquele momento em diante, suas vidas já haviam sido unidas pelo destino.
O tempo passou e os dois foram se conhecendo e fortalecendo cada vez mais, o que pensavam ser uma amizade. Comentavam até sobre outras pessoas e sobre coisas pessoais. Mara falava de seu marido e Celso de sua vida e o que não percebiam é que estavam a cada dia ficando mais íntimos e mais ligados um no outro. Parecia que se conheciam há anos e logo estavam mais unidos um com o outro do que com os outros colegas de sala. Todos os dias conversavam um com o outro e se conheciam cada vez mais, ainda não sentiam a falta um do outro porque suas almas e o fogo que se acendera em seus corações estavam trancados, pois a razão sobrepunha os sentimentos que os dois jamais imaginariam que ainda podiam ter. Sempre voltavam para as suas vidas sem perceber que uma parte delas, cada vez maior ficava naquela sala.
O primeiro semestre se foi e as férias vieram. Ao retornar as aulas, parecia que a aurora de um novo começo para os dois havia iniciado. O destino havia afastado Mara de seu marido que agora morava em outra província e Celso cada vez mais se afastava de sua mulher. As aulas que pareciam um tormento para os dois, pois ambos queriam logo se formar, se tornaram um lugar onde eles poderiam esquecer de tudo e viver um conto de fadas.
Com o tempo, aquela chama que brotara em seus corações crescia e queimava cada vez mais, incendiando suas almas com sentimentos que há muito eles tinham esquecido, sentiam-se como dois adolescentes.
Os olhares entre eles eram mais profundos, e o brilho nos olhos dos dois eram cada vez mais visíveis por todos, sem se dar conta, os dois estavam apaixonados e irradiavam cada vez mais a luz do amor. Certo dia ao entrar na sala, Celso olhou para Mara e sentiu seu coração sorrir com a beleza e o jeito dela, seu cabelo, seu rosto, seus olhos e seu corpo, eram fontes de desejo e inspiração e dentro do seu ser, ele cada vez mais clamava por Mara. Ele estava sentindo uma chama que não podia controlar e com o tempo deixava perceber que estava louco por Mara.
Certa vez ao ver Celso entrando na sala, Mara fixou seus olhos nele e o acompanhou por todo o caminho que ele percorreu até sua carteira. Mara estava percebendo, mas não podia acreditar naquilo, como foi deixar acontecer, sua vida já estava definida, como havia se apaixonado. Seria Celso um demônio ou um mago de olhos claros que a havia enfeitiçado.
Os dois não paravam de pensar um no outro e tinham decidido jamais revelar, pois Celso sabia que Mara era casada e se falasse o que estava sentindo talvez ela jamais voltaria a falar com ele e isso seria muito doloroso para ele. Alias, os dois já sofriam pelo amor que nascera que estava fadado a ser sufocado, dado as condições da vida de cada um deles. Um já invadia os sonhos do outro e ao se encontrarem na sala, ficava claro que estavam apaixonados. Era como se quando estivessem juntos, uma luz se ascendesse entre eles.
Enquanto pensavam um no outro nos cantos mais escondidos de suas almas, tinham medo, pois não podiam mudar suas vidas. Desejavam secretamente ter um ao outro em seus braços sabendo que esses desejos eram proibidos. Algumas vezes não conseguiam se controlar e deixavam transparecer claramente o que sentiam um pelo outro, inclusive no modo como tratavam seus marido e esposa.
Sabiam que era proibido, mas não podiam controlar, e, ao mesmo tempo, que desejavam ardentemente um ao outro não revelavam seus sentimentos, porem o destino talvez guiado por Deus que fez nascer aquele sentimento tão nobre dentro deles, conspirou para que os dois se encontrassem em um dia de atividades durante a tarde.
Como tinha outras pessoas por perto, demoraram para ficarem a sós, mas naquele momento deixaram a razão de lado e resolveram revelar seus sentimentos um pelo outro. Celso foi o primeiro a falar e Mara também confirmou os mesmos sentimentos por ele. Foi uma sensação de alivio para os dois, pois tão belo quanto amar é saber que esta sendo amado, mas uma coisa ainda os fazia sofrer, não podiam ficar juntos.
Daí em diante, se declaravam um para o outro todos os dias, vivendo uma amor platônico e infantil que era impedido de ser consumido pelas circunstancias de suas vidas. A revelação do amor que existia entre os dois, serviu de combustível para a chama da paixão que cada vez mais atormentava os dois quando estavam separados.
Queriam estar juntos mesmo sem se tocar. Mesmo parecendo, aquilo não podia ser errado, Deus não permitiria o amor nascer se fosse errado, não escolheram aquilo, mas sofriam por não poder se entregar a paixão. Imaginavam como seria se entregar um ao outro em uma noite de amor e tinham certeza que seria maravilhoso. Mara percebera que algo havia mudado em sua vida, não sentia mais falta de algo em sua vida e sim de Celso e então percebera que não havia amado de verdade e que essa poderia ser a chance única em sua vida, conhecer o amor. Gostava de seu marido, mas se Celso havia entrado em seu coração, é que o que sentia por seu marido não era amor, e sim carinho, amizade e querer bem. Mesmo assim lutava para não se entregar a paixão.
Celso vivia um dilema mortal, queria mais do que tudo na vida abraçar, beijar e amar Mara, mas não podia força-la, mesmo sabendo que ela também o queria. A dor crescia cada vez mais entre os dois à medida em que o tempo ia passando, pois assim que terminasse o curso era provável que cada um fosse para um caminho e com isso teriam que conviver com esse amor apenas em seus corações e mentes. O que poderiam fazer.
Começaram a passar mais tempo juntos e a se encontrar a tarde, ninguém poderia vê-los, pois todo o reino saberia da traição e isso seria terrível para eles. Mas o amor é belo e sabe contornar as coisas. O carinho entre eles já era imenso que se tocavam ingenuamente nas mãos ou nos abraços e sentiam o frio na barriga que a paixão provoca. Eram como dois adolescentes, proibidos pelos pais de se verem como Romeu e Julieta, dentro deles já estavam juntos, sem nunca terem se beijado.
Aquele sentimento era tão belo e puro que Celso não cansava de se inspirar em Mara para escrever poemas e frases para sua amada. A força da paixão e do desejo os unia cada vez mais e em contrapartida o tempo passada voando.
Próximo ao dia de nunca mais ver Mara, Celso olhou para os céus e pediu a Deus que se aquele amor não pudesse acontecer, que pelo menos ele pudesse tê-la uma única vez e morrer, pois ele preferia ama-la e morrer do que jamais tê-la amado.
Mara ia partir no dia seguinte e a tristeza já tomava conta dos dois, a dor da saudade já consumia seus corações que queimavam de paixão. Mara e Celso estavam arrependidos de não terem se entregue a paixão, mas agora teriam que conviver com a dor de estarem separados. Naquele dia o destino ou Deus uniu os dois, por uma ironia eles ficaram frente a frente em uma casa vazia nos arredores da corte.
Sem hesitar, os dois se entregaram a paixão, entraram na casa e se olharam olho no olho e com os lábios abriram as portas do amor com um beijo. Mara com um olhar sutil despiu-se para Celso que observou seu corpo e admirou como se fosse uma escultura grega. Ao mesmo tempo tirou suas roupas e tocou os seios de Mara com carinho e ternura, deitando-a na cama e começando a beija-la, primeiro pelo pescoço e depois descendo pelo corpo. Entre beijos, abraços e caricias, os dois começaram a consumar o amor que há tanto tempo os inundava por dentro. Nas mais diversas maneiras de amar os dois se entregaram a paixão e preencheram todo o quarto com o perfume do amor em um êxtase de nirvana.
No meio da noite, Celso se despediu de Mara com a certeza de que não a veria mais. Seus olhos cheios de lagrimas gravaram pela ultima vez o semblante de Mara que passou o resto da noite chorando e pensando porque as coisas não podiam ser diferentes.
Celso de longe, observou a carruagem levar Mara, que tinha em seu semblante a tristeza de deixar para trás o seu amado. Quando voltava para sua casa inconformado, Celso viu o alistamento do exercito real e não hesitou em se alistar.
Mara chegou a sua província natal e reencontrou seu marido e suas filhas. Retornou a sua vida, imaginado que talvez o tempo pudesse apagar aquele amor. Isso nunca aconteceu e Mara nunca parou de pensar um só minuto em Celso.
Um mês após deixar Celso, Mara já não conseguia mais viver aquela vida de mentiras e resolveu que tinha que fazer algo, precisava vê-lo. Seu marido havia percebido o que estava acontecendo e em um gesto nobre resolveu deixa-la ir, afinal sabia que não podia mais viver com ela se ela não o amasse. Mara prometeu que voltava para buscar as filhas e foi atrás de seu grande amor.
Ao chegar à província de Celso, procurou-o por todo o canto sem sucesso, até que teve noticias e resolveu seguir os boatos que a levaram até o cemitério local. Chegando lá confirmou o que mais temia, Celso havia sido morto na guerra e enterrado um dia antes. Foi até sua lapide e leu os dizeres:
“Não foi a guerra que me levou, mas a promessa que fiz por amor”.
Mara pos a mão na barriga e começou a chorar, mas não era um choro de tristeza e sim de alegria, pois tinha a certeza que estava grávida do homem que mais amou na vida. Olhou para os céus e voltou para buscar suas filhas. O pedido de Celso havia sido atendido por Deus, o fruto daquele amor se tornaria eterno, porque graças a ele gerações nasceram e cresceram, os filhos dos filhos souberam da historia que é contada até hoje. Mara viveu o resto de seus dias com seus filhos e com a certeza que encontraria Celso e que ele sempre estava ao seu lado. Há quem jura que quando ela morreu Celso, veio busca-la para leva-la ao lugar onde juntos passariam a eternidade vivendo aquele amor que até hoje é lembrado pelas gerações dos frutos que ele deixou.

FIM

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